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segunda-feira, julho 17, 2006

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O pecado original

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Coca-cola invites you to a beduin tent

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O inimigo mora ao lado

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sábado, julho 08, 2006

A frondosa primavera alemã

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O vento

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Acordo de paz

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sexta-feira, junho 30, 2006


Só pra fingir que o blog ainda existe...

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sexta-feira, maio 19, 2006

O vazio moral de uma sombra

O ponto de ônibus era praticamente o único local público onde eu podia me refugiar do sol. Erguida no meio do deserto, aquela era uma cidade sem sombras, como tantas outras do país. Não bastasse a falha da natureza, que impedia as árvores de florescerem ali, também o homem não contribuía. Nas minhas caminhadas infelizes do início da viagem -- quando eu, ingênua, pensava que passear sob o sol do deserto poderia ser uma atividade agradável, até me dar conta de que era a única insensata a fazer isso --, não encontrei uma marquise sequer. Parece que os engenheiros de lá ainda não haviam atinado com os benefícios dessas coberturas de concreto.

Uma cidade sem subterfúgios, sem marquises, sem matizes. Ou você está debaixo do sol, que te cega, te exaure, te enruga e te corrói aos poucos, ou você se encerra na assepsia de um shopping, na fila dos correios, na quietude de casa, num local privado qualquer.

A única interseção confortável, como eu disse no início, era o ponto de ônibus. Não à toa sempre estava cheio, embora apenas uma linha circulasse pela cidade. Será que toda essa gente vai pegar o 15?, eu pensei na primeira vez, quando ainda era novata no local. O ônibus passava, e apenas uma ou outra pessoa subia. As demais, como eu, permaneciam no ponto, entreolhando-se com certo constrangimento, justamente por saberem que todas estavam lá com o mesmo insólito, mas compreensível, objetivo.

Foi naquele ponto, à espera de um ônibus imaginário, que tive minhas reflexões mais lúcidas. Eu acordava bem cedo, tomava café no hotel -- depois de meses acabei me acostumando com o hábito mediterrâneo de comer salada e peixe pela manhã -- e ia para o ponto de ônibus que ficava logo em frente. Queria encontrá-lo vazio para garantir espaço no banco.

Numa cidade onde a maioria das praias é paga, cheguei a ficar preocupada com a possibilidade de começarem a cobrar pelo uso dos pontos de ônibus, aproveitando o sucesso que faziam. Não sei se "uso" é o termo correto. Não há nada que se use, a não ser o banco, restrito a uns quatro privilegiados por vez. Mas nos meus meses ali, pelo menos, escapei de qualquer tipo de taxa municipal. Ainda bem, porque no ponto de ônibus eu passava várias horas do meu dia.

Enquanto as outras pessoas simulavam estar lá por algum motivo mais nobre do que aquele de se proteger do sol -- mesmo que no fundo todas elas soubessem o óbvio --, eu me instalava sem qualquer cerimônia. Tirava meu walkman da mochila, abria um pacote de biscoito sabor amendoim, apesar de ter acabado de tomar café, e deixava bem claro o que me levava até ali: a sombra. Minha sinceridade e proposital desinibição inspiravam olhares de reprovação, talvez por eu expor o ridículo de toda a cena que eles estavam forjando. Eu era a verdade risível que os outros tentavam esconder.

Fiz do ponto de ônibus meu mais aprazível posto de observação. Se no Brasil eu já tinha a mania de espiar as pessoas, em outro país então, de cuja paisagem eu não fazia parte e onde tudo era absolutamente novo, o exercício era ainda mais excitante. No início, passava horas com o olhar fixado na praia tangenciada por montanhas pastéis, despidas de qualquer sinal de vegetação. Para uma carioca, habituada a montanhas aveludadas e à combinação opulenta de praia e verde, aquele panorama árido do outro lado do mundo era capaz de render dias e dias de meditação.

Aos poucos, porém, a imagem já não me atordoava mais. Era natural que eu procurasse um foco de observação menos monótono. Embora aquela não fosse uma grande cidade, onde o vaivém da multidão costuma ser um prato cheio para quem gosta de xeretar mundos alheios, ali não faltavam tipos inspiradores. Era um balneário turístico, paradisíaco, mas enfeiado e saturado pelos hotéis e grandes centros de consumo à beira-mar. Uma cidade assim, mistura de Miami e Búzios, atraía turistas heterogêneos. Numa praia se viam velhinhos americanos deitados em espreguiçadeiras; os mesmos que, à noite, jantavam no restaurante do hotel ouvindo jazz ao vivo, bebendo uísque, e compenetrados numa animada partida de bingo. Em outras partes da cidade, nas praias mais isoladas, concentravam-se os jovens mergulhadores com seus apetrechos; os mesmos que, no dia seguinte, cruzariam a fronteira em busca de pontos mais exóticos de mergulho.

No meio de tantos turistas, eu me lançava ao desafio de adivinhar quem era morador. Um gesto, uma peça de roupa, uma expressão, o jeito de andar. Buscava indícios que me permitissem dar o veredicto. Mas a brincadeira nem sempre era fácil, sobretudo porque a maior parte dos habitantes não havia nascido no país. Tive de refinar minha capacidade de observação para conseguir distinguir a população local. E foi o contato com um de seus integrantes que abalou a minha estrutura emocional. O mérito daquele homem, vale dizer, nem foi tão grande. Não é necessário muito mais que um sopro para estremecer meus alicerces de papel.

Junto ao ponto de ônibus havia um telefone público, que, no entanto, não era próximo o suficiente para permitir que nós, os freqüentadores da sombra, ouvíssemos as conversas. De qualquer maneira, meus colegas de teto nem pareciam muito interessados. Ou no mínimo fingiam não se interessar, concentrados que estavam na espera do ônibus que nunca haveria de chegar. Eu, ao contrário, tentava aguçar a audição quando via alguém se aproximar do orelhão.

Mas quando o tailandês começou a falar ao telefone, nem precisei me empenhar para captar a conversa. O tom de voz era tão alto que as palavras dele é que vinham naturalmente até mim. Esforço seria necessário fazer para não ouvi-las. Figura anacrônica, como se vestido com sobras do figurino de um espetáculo de teatro já fora de cartaz havia alguns anos, o usuário do aparelho parecia peça trocada de um quebra-cabeça também fora do lugar. Se bem que uma cidade como aquela, sem identidade, jamais produziria peças harmônicas de um quebra-cabeça. A sensação era de que os habitantes não se encaixavam em lugar algum. Uma inversão de papéis se operava ali, com a população local parecendo mais estrangeira do que os próprios turistas e vice-versa.

Aqui pretendia dizer como concluí que o tailandês era tailandês, mas não consigo costurar esse pedaço do enredo. Me refiro com tanta convicção ao usuário do telefone como tailandês que simplesmente ignoro os sinais que me fizeram deduzir a nacionalidade dele. A língua falada no telefonema, é bom dizer logo, era o inglês. Um inglês esquisito, um inglês não nativo, mas eu não teria como concluir que era o inglês falado por alguém da Tailândia. Não sou tão perspicaz na observação dos idiomas. O máximo que sei é identificá-los. Mas determinar a procedência daquele sotaque era demais para mim.

A roupa do suposto tailandês não era tipicamente oriental. É verdade também que eu não faço a menor idéia do tipo de roupa que se usa na Tailândia, se é que existe um "tipo de roupa que se usa" lá. Eu, ocidental, já imagino pessoas com trajes folclóricos e nada mais. De qualquer forma, meu tailandês -- um moreno de baixa estatura, com o cabelo todo penteado para frente, a ponto de encobrir a testa inteira -- estava de calça social bege e paletó de um tom mais escuro. Todas as peças que vestia estavam largas, como se fosse o resto de um figurino, como já cheguei a afirmar. A armação dos óculos era quadrada e marrom, e uma das hastes havia sido colada com um pedaço de durex. Atrás daquelas lentes, havia afinal algum traço que indicava origem: olhos puxados. Mas, a exemplo do que eu disse sobre a língua inglesa, também não teria competência para diferenciar os vários formatos de olhos puxados do Oriente. Se para eles a diferença deve ser óbvia, para mim é nula ou, com muito boa vontade, sutil.

Oriental e morador. Isso era o máximo que eu podia deduzir do sujeito que se postou na cabine telefônica e lá ficou algumas horas. Oriental, como eu já disse, por causa dos olhos puxados. Morador, por causa da roupa. Um turista numa cidade litorânea jamais se vestiria daquele jeito. Bermuda e chinelo compunham o traje típico de quem estava a passeio pela região. Em algum momento, devo ter concluído que era tailandês, mas, mesmo depois de reconstituir a cena e inventariar a roupa e a fisionomia, não consigo lembrar como constatei a nacionalidade.

Apesar de ter reparado que ele falava em inglês, foram poucas as palavras que realmente pude entender do diálogo travado no orelhão. O homem falava alto, eu ouvia tudo, mas não compreendia. E nenhuma das palavras, nem a junção delas, me permitiu saber do que se tratava aquela conversa, o que me deixou intrigada. As horas passavam, e só eu continuava no ponto de ônibus o tempo todo. Era grande a rotatividade das pessoas que se abrigavam naquele teto. Ninguém, exceto eu, ficava ali mais de uma hora. Em geral, fazia-se uma parada para descansar do sol e do calor, dava-se um tempo, bebia-se uma água, fingia-se por alguns minutos esperar o ônibus 15 ou qualquer número fictício, e depois se deixava o local.

Eu não, menos ainda naquele dia. Havia um homem que não saía do telefone. E que esbravejava no seu inglês característico, sem que eu conseguisse decifrar o que estava sendo dito. Para uma voyeur como eu, que acompanha sem pudor conversas em restaurantes, nas calçadas, nos ônibus ou em qualquer outro lugar, e fala sobre os outros com mais propriedade do que sobre si mesma, aquilo era quase uma provocação. E toda aquela cena eu podia observar confortavelmente sentada num banco público e debaixo de um teto que desenhava uma ampla sombra no chão. Não havia motivo para abandonar o camarote.

O tailandês estava nervoso. Enquanto gritava, ele batia o pé esquerdo no chão várias vezes, em intervalos tão regulares que parecia estar seguindo um ritual ou uma simpatia. Mas, apesar dos berros, graças aos quais eu podia observar melhor a cena, alguma coisa na maneira de falar me levava a crer que o homem estava dando conselhos ao seu interlocutor. A crença foi virando certeza cada vez que eu ouvia a expressão "you should", em vezes intercaladas com uma freqüência tão pensada quanto a das batidas do pé. Esse cara tem método, não há dúvida, concluí na hora.

O diálogo estava mais para monólogo. Eram raros os momentos em que o homem se calava para ouvir o que a pessoa do outro lado da linha tinha a dizer. Naquela hora me lembrei do filme Encontros e Desencontros, em que o diretor do comercial de uísque orientava Bob Harris, o "garoto"-propaganda. Mas o tom da orientação era muito mais condizente com uma reprimenda, uma bronca, do que com a serenidade, ou no máximo a firmeza, que se espera de quem está dando conselhos. Para quem não entendia japonês, aquilo era uma briga ou um sermão. Ao me lembrar do filme, comecei a achar que os orientais falam naturalmente com raiva e intensidade, e que, portanto, não havia nada de estranho na forma como o tailandês se expressava. Mas depois me vieram à memória os filmes orientais em cujas sessões eu dormi profundamente, sono que na época eu havia atribuído ao tom monocórdio e sereno das palavras e dos personagens.

O que me chamava atenção no tailandês e em seu discurso codificado era a maneira como defendia pontos de vista. Se era herança cultural, como cheguei a pensar quando me recordei do filme de Sofia Copolla, ou peculiaridade de seu caráter, como ficou mais provável com a lembrança de filmes orientais que nada tinham de raivosos, no fundo pouco importava. Alguém que dá conselhos com tanta ênfase deve acreditar em muitas coisas. É o tipo da pessoa que se entrega com devoção. Não sei a quê. Mas a algo.

Até alguns meses atrás, antes de um episódio em que me vi cercada de mulheres religiosas chorando de tanta fé, eu pensava que essa entrega de corpo e alma fosse restrita aos homens. Eu, que, sem qualquer modéstia, adoro teorizar sobre a condição humana, costumava dizer que só os homens eram tão devotos no esporte, na arte ou na religião, por exemplo. Os homens, pensava eu, sempre elegiam um ópio muito específico e canalizado. No caso das mulheres, em contrapartida, emoção e razão estariam mais diluídas e não haveria nenhuma certeza à qual realmente se entregassem com tanta paixão. Engano de quem tende a generalizar o próprio umbigo.

Esses devaneios não estavam me fazendo bem. Em geral, quanto mais lúcida é uma reflexão, mais incômoda ela será também. Sentada havia algumas horas no meu camarote nada particular, eu observava um homem sustentando insistentemente suas próprias verdades. Devo admitir que me senti humilhada por aquele tailandês. Parecia que ele estava ali só para exibir meu vazio moral, em oposição à solidez de seus princípios. Um homem que bate o pé, vocifera e diz "you should" várias vezes deve saber alguma coisa que eu não sei.

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quarta-feira, abril 05, 2006

Brincadeira de mau gosto

Um mês sem escrever, um mês quase sem ler, um mês sem usar acentos, um mês sem usar óculos diante do computador, um mês de mensagens telegráficas, um mês de "quando eu voltar, prometo contar tudo em detalhes", um mês sem compreender direito o que diziam as pessoas à minha volta, um mês sem o compromisso com a complexidade, um mês com dificuldades de comunicação, um mês de muitas saudades da língua portuguesa, do meu sinuoso mundo em português.

Estou de volta após um mês estranho. Fisicamente de volta, mas ainda sem ter aterrissado direito. Cansada, agitada, a cabeça cheia, mas cheia do quê? Imagens sem palavras, sem articulação, sombras sem forma, potência silenciosa, enigmas. Não estou aqui, não estou lá. Onde estou? Quando eu estava lá (nos vários lás por onde passei), me identificava com o aqui. Agora, aqui, sinto que estou mais pra lá do que pra cá. Que brincadeira sem graça é essa? Minha identidade me desafia num jogo de pique-esconde. Um pique-esconde compulsório e nada infantil. Eu, judia, brasileira, neta de europeus, procurei nesgas de identidade em Israel e na Europa, e agora estou de volta ao Brasil sem ter qualquer noção do que sou.

Uma tcheca que mora sozinha no Egito e trabalha num bar no meio do deserto do Sinai; um israelense que se apaixonou por uma européia no Havaí e hoje mora lá com ela e o filho ao lado de outras famílias, vivendo do que produz; um suíço que iria passar cinco semanas no Egito mergulhando; um árabe que nas horas vagas se oferece como guia para os turistas da Cidade Velha, sem cobrar nada em troca; um israelense da minha idade, com aparência quase bíblica, que sabe um monte de línguas e já foi preso porque ganha dinheiro vendendo haxixe para os alunos da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Conheci vidas improváveis e agora preciso descobrir o que fazer com a minha. Voltei para casa ontem e meu pai perguntou se eu sabia que o Palocci havia caído. Mas eu continuo sem me importar uma vírgula com o Palocci. Continuo sem tesão para o mundo real, o mundo coletivo, da História que caminha em bloco.

Nos meus primeiros dias em Israel, cheguei a escrever que eu estava vivendo um choque de realidade. A necessidade de me virar, de me comunicar, de resolver questões práticas, de fato é um choque para alguém que costuma se refugiar na fantasia. Mas não se compara com o impacto de que estou sendo vítima desde ontem e que tende a piorar com o passar dos dias. São 7h30 da manhã e eu estou acordada desde 6h25, mesmo com todo o cansaço de uma viagem de quase 12 horas de avião.

Estou de olhos abertos sem saber o que fazer. Chegar ao Brasil foi o fim do faz-de-conta em outros idiomas. A cortina subiu e todos começaram a falar minha língua. Tudo ficou transparente, mas de uma transparência que fere a vista de tão luzidia. Por isso, me sinto cega com os olhos voltados para o sol. O mundo está andando. Fincadas na realidade, as pessoas vão vivendo, abrindo brechas, aproveitando os vários canais. Eu não enxergo os meus.

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quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Uma bárbara que se contempla no espelho
A fotografia já estava coberta de pó. Minha imagem, que um dia fora nítida, perdia cor naquela cena de mutilação cotidiana, entre papéis previstos e vícios bem nutridos. Ontem reuni as migalhas de meus contornos já diluídos. Saí de um quadro de que eu já não fazia parte havia muito. Enquanto preenchia as últimas horas numa atividade que me mediocrizou por mais de três anos, eu me projetava para daqui a dez anos e, em perspectiva, observava aquele suplício final como um ponto em minha linha do tempo; e aqueles colegas à minha volta, como personagens longínquos, tragados pela areia movediça da memória.

Abandonei a engrenagem alquebrada, com regras sem sentido que sustentam um mundo ilusório, feito de bolos de mostruário. Rompi com o coletivismo em nome do indivíduo que sou. Parei de ler jornal para deixar de me alienar com o frenesi das informações sobre um universo que tenta me engolir. Não domino as estratégias do jogo da vida, sou feita de ar, mas meus farelos não são de fácil digestão. Estou convencida de ter deixado o rastro de um primitivismo que incomoda as relações cordiais e civilizadas de hoje.

Relações insossas, sorrisos amarelos, piadas sem graça com risadas automáticas, cidadãos de bem, contas em dia, o trabalho dignifica o homem, siga as leis, obedeça às hierarquias, amoleça seu caráter e comporte-se ao sabor das conveniências, cultive contatos como se fossem amigos, leia jornal, não seja alienado, preocupe-se com os rumos da humanidade, fale sobre as taxas de juros, assista a filmes de superação, finja perder noites de sono pensando no conflito da Chechênia. Devore a si mesmo e diga sempre "sim" para não correr riscos nem desagradar.

Imatura e selvagem, sou uma idealista só verossímil em algum livro esquecido na estante. Me sinto anti-heroína num mundo que se vende como isento de heróis e vilões. E odeio falsa modéstia.

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terça-feira, dezembro 27, 2005

Feliz Natal!

Cenário: Eduardo Compan/ Fotos: André Compan
E no dia 25 de dezembro de 2005, por volta das 4 e meia da tarde...


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segunda-feira, dezembro 05, 2005

Hey, ho, Rio!
A apoteose do grunge, mais de uma década depois

No dia seguinte, Pearl Jam é dor de garganta, voz que teima em não sair, pés moídos, costas alquebradas, hematoma na barriga provavelmente causado por uma cotovelada. Só agora, talvez 18 horas depois do último bis, consigo recobrar a consciência e tentar ordenar os flashes da memória. Não é ainda uma distância segura para um relato objetivo; há muito do show impregnado em mim. Durante aquelas duas ou três horas de espetáculo messiânico - quem seria frio a ponto de contar o tempo? -, eu era a multidão e a multidão era eu. Eu era barriga e cotovelo.

Era mais: canto, grito, riffs, aplausos, suor, arrepios. Lágrimas, enfim. Nunca pensei que me tornaria uma daquelas fãs histéricas que aparecem com seus berros estridentes nos vídeos de shows dos Beatles. Mas, na passarela do samba por onde desfilou rock, lá estava eu segurando o choro ao reconhecer os primeiros acordes das músicas que comecei a ouvir aos 13 anos e nunca deixaram de me acompanhar.

A emoção compartilhada com 40 mil pessoas revelava intensidade igualmente grande em reações diferentes. Uns pulavam, outros se abraçavam, eu quase sempre inclinava a cabeça à frente e levava as mãos ao rosto. Também apertava os olhos sentindo mais fundo a música, que reverberava nos órgãos e convertia minha caixa torácica em mais uma caixa de som. Se existe alma, nem ela ficou indiferente.

O êxtase coletivo se apossou de mim, derrubando minhas defesas tão rapidamente quanto os goles de vinho tinto embaralharam a pronúncia do português de Eddie Vedder. "O Papa não morreu", gritou um gaiato. Vedder não ouviu, nem entenderia a piada, mas disse, lendo as notas que deixou a seus pés, que este seria o melhor show da turnê brasileira. Segundo um amigo aficionado, que assistiu a quatro dos cinco, realmente foi.

Começei a me tornar todos, de fato, quando gesticulei com os dedos da mão em "Animal", coreografia ensaida desde o VMA, da MTV, de 93 ou 94. Aos pulos e gritos, suei em bicas durante "Even flow", como se vestisse, outra vez, a velha camisa flanelada. Descobri, surpreso, que sabia letras de faixas do "Vitalogy" e que "Dissident", do "Versus", era conhecida da maioria. Poderia dizer que resisti até a "Daughter", não fossem os pêlos eriçados desde os primeiros acordes. Mas "Black" foi a gota d'água. Esta, sim, escorreu-me dos olhos.

Vergonha nenhuma. Não era preciso esconder as lágrimas. Já tinha consolado uma amiga, umas duas músicas antes, com um ombro solidário. E agora éramos todos guitarras - tchururutchutchururu. Nossas palmas, a bateria. E éramos também platéia, levados em marolas ("Oceans"?) pra lá e pra cá, uns apoiados nos outros como num ônibus lotado. Lembrei-me de quantos amigos, colegas e conhecidos eu sabia que iam ao show, mas não consegui encontrar. Pensei, então, o quanto estávamos juntos naquela multidão em transe.

Transe que se repetiu em "Last kiss" e beirou a catarse em "Alive", cantada mais de uma vez para clamar por um bis. A catarse chegou, finalmente, quando o Pearl Jam tocou a música que, sem ensaio, cantáramos para cobrar mais um bis: "Jeremy". Não foi a última música que a banda tocou, mas o show acabou ali. E de uma forma que fez jus a seu palco: a Apoteose. Fosse um DVD, o restante seria material extra. Em CD, a bonus track. Ou, entre novos amantes, a mania de se recusar a desligar o telefone quando nada mais precisa ser dito. Nada mais precisava depois de "Jeremy".

Comoção semelhante só o esporte é capaz de proporcionar. E o Pearl Jam Futebol Clube já ganhara um grito de torcida organizada. Sob a inspiração dos Ramones, aviso de que "I believe in miracles" estava mais adiante no set list, Eddie Vedder lançou o corinho de "Hey, ho, Rio! Hey, ho, Rio!"

Mas nem só pelos sons esse show será inesquecível. Vai ser difícil apagar da retina a bandeira do Brasil aberta no meio do palco com a silhueta de Vedder atrás, misto de redentor e o boneco de pauzinho que estampa camisas da banda. E como se esquecer da maneira terna e respeitosa, quase militar, com que o vocalista dobrou a bandeira, passo a passo, até abraçá-la junto ao peito, como se desse colo a um bebê?

Houve até espaço para manifestação política. E, nesse ponto, a memória não me permite ter a certeza de que foi logo antes do singelo tributo aos Ramones, quando Vedder nos levou a acreditar num mundo melhor. Ele prometeu que voltaremos a nos encontrar quando George W. Bush já não ocupar a presidência dos Estados Unidos.

Promessa é promessa. Se a política americana não mexia com meus brios, agora tenho um bom motivo para me engajar. Estou saindo em campanha para os democratas. Não quero saber suas propostas para o impasse no Iraque ou suas teses sobre os pré-requisitos para estagiar na Casa Branca. Quero, sim, poder gritar de novo e o quanto antes:

- Hey, ho, Rio!

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domingo, outubro 23, 2005

A ilusão do referendo

Tanto o "sim" quanto o "não" no referendo sobre a proibição da venda de armas de fogo e munição no Brasil são respostas carregadas de esperanças que podem resultar ilusórias. Quem vota pelo desarmamento imagina que a medida vai reduzir o número de revólveres e pistolas em circulação, que, embora adquiridos legalmente para autodefesa, acabam em mãos erradas. Os eleitores do "não" citam o direito à legítima defesa, agarrados à ilusão de que andar armado aumenta a própria segurança, apesar de a maioria das pesquisas confiáveis mostrar o contrário.

Os dois grupos concordam num ponto: nem uma decisão nem outra vai resolver o problema da violência. Os fuzis e as metralhadoras de fabricação estrangeira ou os modelos de uso exclusivo das Forças Armadas não deixarão de chegar aos domínios do tráfico, porque não são roubados dos chamados cidadãos de bem. Em contrapartida, disseminar o emprego da arma pela sociedade, supostamente para contornar a inoperância da polícia ou em resposta à falta de confiança nela, provavelmente levará, antes, à barbárie e à anarquia do que à queda da criminalidade.

O que se discute, então, não é a solução de uma questão complexa, mas casos isolados. Perguntamos a nós mesmos o que acontecerá se os bandidos tiverem a garantia da lei de que não serão surpreendidos por vítimas armadas durante um assalto ou quantas vidas seriam poupadas em situações banais, como brigas conjugais ou de motoristas.

Talvez seja por isso que as propagandas do horário eleitoral gratuito apelam para simplificações. A campanha do "sim" argumenta, nos jingles, que aprovar a proibição é dizer "sim à vida" e tenta pegar carona na campanha do desarmamento voluntário feita pelo governo federal. Já a do "não" aventa a repressão ao sugerir que proibir a venda de armas é um atentado à liberdade individual e faz clara oposição ao presidente Lula, aproveitando sua baixa popularidade. Os contornos políticos ficam mais nítidos na veiculação de informações erradas como a de que o referendo - marcado bem antes das denúncias - foi programado para a população esquecer a crise política e na defesa da tese de que o governo quer desarmar os cidadãos, não os bandidos.

As peças de propaganda amadoras que circulam pela internet não só reproduzem, como também radicalizam as idéias da campanha oficial. Existem apresentações em Power Point com profundas imprecisões históricas - para não dizer absurdos. Dizem que 6 milhões de judeus morreram no Holocausto porque foram desarmados por Hitler e que a proibição da venda de armas possibilitou os assassinatos em massa ordenados por Stalin.

Embora a discussão sobre o referendo fique circunscrita a teorias quanto a episódios, sejam eles da vida privada ou da História, a segurança pública não permite uma análise avulsa. Boas políticas nessa área dependem da fiscalização das fronteiras, de avanços na educação gratuita, de melhores oportunidades de ascensão social a integrantes de famílias de baixa renda e de trabalhos a longo prazo nas comunidades - como grupos culturais, ensino profissionalizante e atividades esportivas - capazes de dificultar o aliciamento de crianças por traficantes.

Sem essas preocupações, que agora parecem acessórias, qualquer decisão tomada no dia 23 de outubro mexerá apenas na margem das pesquisas. Porém, como há números estatisticamente desprezíveis, mas vidas não podem ser desprezadas, meu voto é "sim". Com ele, pretendo evitar tragédias de civis contra civis em discussões de condomínio ou de trânsito. E talvez diminuir os casos de crianças que descobrem uma arma de verdade em casa e resolvem brincar com ela. Se você discorda de mim, acha isso uma ilusão, deve estar certo. Mas também iludido.

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segunda-feira, outubro 03, 2005

Vovô Léo - uma biografia

Não tenho computador e escrever a mão é ultrapassado demis. Não vivi no século retrasado, ora. Resta-me, então, usar esta velha máquina de escrever, que às vezes emperra em letras como "r" ou "a". Na verdade, com ou sem micro, o ideal seria ter rabiscado as primeiras linhas quando ecordar não me era um suplício.

Precisei fazer 84 anos para perceber que a idade chegou, ao quase "empacotar", como diz meu genro, depois que comi uma inocente pele de galinha frita. Eu que já fui de pedir a pele da galinha dos outros! Convenhamos, isso não é vida. Mas gosto de pensar que, dessa forma, minha condição equivale à de um defunto autor.

Não sou autor defunto, porque não morri nem fui escritor. Jamais escrevi uma linha. Estas são as primeiras e carregam a responsabilidade de integrar este rascunho de autobiografia, organizada segundo as memórias que se desmancham num fluxo de consciência.

Lancei-me à tarefa para atender aos pedidos insistentes da minha filha e do meu neto. Cumpre esclarecer neste preâmbulo - ou seria prefácio? - que são eles os verdadeiros culpados por este erro.

Incutiram-me a idéia de pôr no papel passagens da vida que me vêm à cabeça de repente e eu, na ânsia de socializar-me, conto aos parentes, para notar no semblante deles que não se trata de histórias inéditas. A sugestão de escrevê-las - agoa me dou conta - deve ser para poupá-los dos causos que já sabem contar melhor do que eu.

Mas se eles conhecem o que vou escrever, por que lhes escrevo? Talvez escreva para mim. Para me encontrar. Não no curto-circuito de meus neurônios; mas numa resma de folhas brancas marcadas menos pela tinta seca que pela violência do tipo a cada batida no tecldo. Preciso, antes, recolher as pistas jogadas ao tempo para saber quem fui - sou?

Quero ser algo além de uma barriga grande, privada da manjubinha frita à beira-mar, do olho vitrificado longe do Redentor, da garganta inflamada sem chopp gelado, da pele flácida e branca escondida do sol e do rosto manchado por um vitiligo tardio que exige um fator de proteção incompatível com a aposentadoia. Envelhecer é cruel.

Em contrapartida, este corpo que já não me serve me afasta de grandes decepções. Vejo na televisão que o Caju se consome num cemitéio cercado de favelas. Nem parece que, quando crianç, ganhei ali o apelido de peixinho. Nadava naquelas águas hoje turvas, mergulhava, pegava no fundo pedrinhas e moedas lançadas por amigos. Criei ali a bombinha, que fascinaria meus netos 60 anos depois. Nada mais que um jeito de espirrar a água ao fechar bruscamente a mão na superfície do mar. Os bisnetos, se viverei para vê-los, hão de preferir os videogames de celular.

Outro dia, de carona com meu neto, passei na Riachuelo. A Lapa está muito mudada, irreconhecível. O velho Clube dos Democráticos virou uma fachada do que era. Mas fiquei na dúvid se não foi a minha memória que se deturpou. Uma das duas me traiu.

A Lapa ignora o tempo em que lá morei com mamãe, a portuguesa que me criou sozinha e me ensinou a me virar. Não estou na Lapa de bundas que sobram para fora dos shorts e umbigos perfurados das meninas que não sou capaz de dizer se são putas ou estão com calor. Hoje, qualquer menina deixa o corpo à mostra e faz qualquer coisa com qualquer um.

No meu tempo, era diferente. A gente nunca desrespeitava mulher de família. Agüentava até não poder mais e ia se aliviar com outra, mas sempre pensando na namorada, que era o maior objeto de desejo. Chamam de repressão; eu chamo de respeito.

Pensei nisso durante a carona, que nem dirigir me deixam mais. Logo eu que dirigi um jipe na Guerra da Itália e passei anos no Rio vivendo com o salário miserável de motorista de lotação, sem direito a férias, até que esfreguei na cara do chefe minha redenção: o Diário Oficial com a lista dos aprovados num concurso para a Secretaia de Saúde, que hoje fica no centro administrativo do Piranhão. Um apelido que - não consigo conter o comentário - sugere a promiscuidade da política desta cidade quatrocentona, orgulhosa de seu autoproclamado imperador.

Bem, voltemos à viagem. Sim, uma viagem de cerca de uma hora de Jacarepguá ao Flamengo. Chegamos a um Lamas que não fica no Largo do Machado. Um Lamas sem mesa de sinuca no segundo andar. Um Lamas sem bacalhau à minhota. Verdade que o bacalhau estava ótimo; tanto que levei outro numa quentinha para o jantar. Mas não er à minhota, e eu não vi meu reflexo naquela parede espelhada.

Tomamos sorvete no antigo prédio da Sears que virou um shopping. A vista da enseada de Botafogo e do Pão de Açúcar, de um lado, e do Cristo Redentor, do outro, transportou-me para o momento em que me dei conta de que sobrevivi à guerra e voltei à minha cidade. Por alguns minutos, fiquei encostado no parapeito, o olhar perdido, o peito apertado de orgulho. Mal ouvia o que meu neto dizia.

Calado, contemplativo, voltei para casa sem dizer uma palavra. Meu neto decidiu tomar o caminho da Zona Sul e da Barra. Já não me lembrava das ruas, desconhecia os atalhos, perdia-me no trânsito sem as antigas referências. A cidade, que eu conhecia como a plma da mão, metamorfoseou-se espantosamente.

No jardim de casa, em Jacarepaguá, onde o tempo passa mais devagar, veio-me um turbilhão de memórias cruzadas e sobrepostas, que aos poucos tentarei ordenar nos próximos capítulos. E como uma entidade externa a meu corpo, vi no vinco das rugas da mão as construções que brotam pela cidade. Apesar do tempo implacável, ainda é minha, cabe aqui e há de caber-me. Você não enviuvou de mim.

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O alucinado

Cesar Maia deve ter tomado alguma substância alucinógena de novo.

Na campanha eleitoral do ano passado, a suspeita pesava sobre a pomada besuntada nos dedos para evitar que roesse as unhas. Como o prefeito reeleito não conseguiu resistir à tentação de arrancar uma lasca de queratina de vez em quando, o remédio teve um efeito colateral talvez comparável ao do LSD.

O Reveillon em Copacabana foi um fiasco. A fumaça encobriu os fogos, e quem foi à praia vaiou o decepcionante espetáculo. O caso não deu em nada: ninguém foi punido, a empresa responsável não devolveu o dinheiro da queima de fogos e ficou tudo por isso mesmo. O próprio Cesar não parecia muito interessado em investigar o episódio. Disse em sua posse, na Câmara dos Vereadores, que gostou ainda mais da pirotecnia nublada. Como uma criança que adivinha os objetos formados pelas nuvens, o prefeito afirmou ter visto na fumaça o espírito carioca (seja lá que forma isso tome), o Cristo Redentor e pessoas sambando.

Tão ou mais surreal foi a recente declaração de que não há nada a fazer em relação ao espigão de mais de 50 apartamentos erguido na Rocinha, à revelia do poder público. Renunciando a uma de suas prerrogativas, o prefeito disse não ser possível coibir uma construção ilegal que, aparentemente, oferece risco aos moradores - o prédio acompanha verticalmente a encosta. Cesar também deixou claro para quem pretende governar ao argumentar que é melhor um espigão no morro do que fazendo sombra nas praias da Zona Sul (como, aliás, faz o Meridien, justamente o hotel que integra o espetáculo dos fogos no Ano Novo).

Nessas horas, eu não queria ser da assessoria de comunicação do prefeito, que precisou enrolar, enrolar e enrolar - num lapidar nariz de cera, como se diz no jargão jornalístico - antes de entrar no assunto da notícia.

Se Cesar dá declarações tão estapafúrdias, é de se especular o que ele pensa mas não fala. Os subsídios de prefeito são dinheiro demais para alguém que se limita a fazer articulações políticas para vender caro seu apoio na campanha presidencial e atualizar um blogue, tarefa que ele abandonou porque lhe tomava "tempo mental, mas não físico".

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terça-feira, agosto 16, 2005

O governo e o discurso

O discurso do presidente Lula foi um bom resumo do governo. E aqui não vai elogio algum.

Lula perdeu três eleições e ganhou a quarta. A insistência de se candidatar de novo, apesar das sucessivas derrotas, fez crescer a expectativa depois da vitória. O próprio presidente sabia da responsabilidade: confessou, emocionado, que não podia falhar.

A mesma insistência Lula mostrou ao permanecer em silêncio durante boa parte da crise política. Diferentemente do que se podia imaginar, cada nova denúncia parecia alienar mais o presidente. Ele fugia do assunto, sumia dos grandes centros, abandonava Brasília. Como a eleição que nunca se concretizava, a demora em anunciar sua posição e falar à nação só produzia mais expectativa.

Uma questão de momento prejudicou o presidente nos dois casos.

Os anos de oposição com reivindicações desejáveis - mas talvez não factíveis -projetaram a imagem de um governo espetacular e frustraram, se não a maioria, um grande número de eleitores e militantes petistas. Ainda que haja progressos, sempre serão poucos para estar à altura do que se esperava. O cenário poderia ser diferente se Lula tivesse subido antes a rampa do Palácio do Planalto.

Da mesma maneira, o discurso tardio dificilmente transformaria, em minutos, decepção em adesão. Diante da expectativa amplificada pelos meses de aparente omissão, ficou a impressão de que o texto foi lido sem o entusiasmo necessário quando exaltava as realizações do governo e sem a veemência obrigatória nos trechos que queriam transmitir indignação. Um castigo para quem apostou que a crise não ia se avolumar debaixo dos próprios pés.

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quarta-feira, agosto 10, 2005

Duas hipóteses

1) Lula não sabia
O presidente Lula não parece se interessar muito pelas articulações para formar maioria no Congresso. Foi um deputado pouco atuante. Legislar lhe dava sono. Por isso, na presidência delegou responsabilidades para poder se dedicar à criação de metáforas em discursos. Ao então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, cabia conseguir o apoio dos deputados ao governo. "Se vira aí, Zé", teria dito Lula. "Mas não me diga que eu preciso acomodar outros nanicos, aqui, no Planalto".

2) Lula sabia
A compra de votos chegou aos ouvidos do presidente Lula. Se não antes, quando Roberto Jefferson lhe contou. Lula tirou satisfação com José Dirceu e mandou cortar o pagamento. É possível que tenha sido poupado de detalhes e bem provável que não tenha autorizado o esquema. Imagina-se o seguinte diálogo: "Pára com isso, Zé, que vai dar merda". "Mas, presidente, foi assim que nós conseguimos aprovar..." "Chega, Zé. Não quero nem saber".

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segunda-feira, agosto 08, 2005

Um acadêmico calouro

Ajeito o banco um pouco para trás. Fixo os tênis nos pedais com a tira de borracha. Primeiro o esquerdo. Depois o direito. Começo a pedalar sem sair do lugar. Desanimados, os pés escorrem à frente, por inércia. Adiante, o reflexo patético de um ser humano-hamster girando a rodinha da gaiola.

Entram os outros reféns do cativeiro com ar condicionado, televisão passando novela e música de boate da Barra. Este é o momento em que os odeio pelas duas pulseiras coloridas de silicone, pelas roupas mais apropriadas impossível, pela coleção de meias que se escondem no cano baixo de seus calçados de mola.

Cinco minutos, 37 km/h. O banco recua e eu o empurro à frente sem interromper os desenhos de círculos concêntricos com os pedais. O suor poreja na testa e ameaça chorar. Um ponto mais escuro sobressai no peito através da blusa. Todos caminham roboticamente em passos rápidos ou sobem uma interminável escada, em degraus que se sucedem e se substituem, sempre no ritmo das passadas.

Os movimentos frenéticos começam a me contaminar. A música bate-estaca me bombeia o coração. A volta do pedal parece menor, menos extenuante. Chega a hora em que o difícil é parar de pedalar. O banco volta ceder. Uma, duas, três - perco a conta das vezes em que preciso movê-lo. Mas a essa altura a regulagem já faz parte do exercício e eu sou a engrenagem.

Quinze minutos, 41 km/h. A impressão é de que dali sairei apenas a bordo de uma bicicleta comum, dessas que realmente andam, tal Chaplin que sai por aí apertando parafusos imaginários. Ou de que, na falta dela, tentarei pedelar no vácuo, as costas no chão, como uma barata estrebuchando para ficar de pé.

Fato é - e eu preciso reconhecê-lo - que a cabeça vai se desanuviando. O meio é a massagem: shiatsu cerebral que dispersa os problemas e as preocupações.

A revolução, porém, limita-se a mim e a minhas circunstâncias. Ninguém se detém neste pequeno milagre. Não há quem converse, troque idéias nem sequer fale do tempo. Cada um tem muito o que analisar no próprio corpo refletido no espelho. Estão todos nus e invisíveis.

Vinte minutos, 14 quilômetros percorridos. Recorde pessoal. Encharcado de suor, levanto triunfante, passo perfex no banco da ergométrica, verifico de novo o visor. Não há medalhas ou hinos, apenas a música hipnótica. Resta o discutível consolo de olhar o espelho e, num sinal discreto, parabenizar-se. À revelia da sua vontade, diz-me o reflexo, você está se tornando um deles.

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quarta-feira, agosto 03, 2005

Luiz Inácio Lobo da Silva
Demorou um pentacampeonato mundial e - quantos? - três palanques montados após o início da crise política. A irritante mania de atribuir a influência do número 13 às conquistas da "verde-amarela" foi vinculada ao partido da estrela vermelha fora da urna eletrônica. Como um técnico da pátria de chuteiras, o presidente que veio do povo disse: "Vocês vão ter que me engolir". Surge mais uma dúvida esdrúxula numa época em que pisar em ovos é arriscado e praticamente nenhuma conspiração soa absurda. Lula e Zagallo seriam a mesma pessoa?

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terça-feira, junho 21, 2005

Douglas, o errante multitarefas da rua Santa Clara
Gordo, bonachão, cabelo de prata enferrujada. Burguês decadente. Professor de matemática aposentado. Compulsoriamente aposentado. Vendedor de livros num carrinho de feira, na esquina da Santa Clara com a Cinco de Julho. Um judeu de kipá, um nômade que circula sem rumo pela rua. Um flanêur que se mistura e distribui panfletos de aulas particulares.

Hoje, minha mãe e eu estávamos indo fazer um exame oftamológico na Santa Clara 50, quando Douglas nos parou para entregar um novo panfleto, com uma profecia ameaçadora.
"Rio de Janeiro, 13 de maio de 2005. Prezado senhor, em abril deste ano recebi a seguinte mensagem: 'Ou os homens se interrelacionam fraternalmente ou a humanidade se destruirá.' Observação: Eu não estou em busca de medalhas, de promoção ou de qualquer coisa. Douglas."

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segunda-feira, junho 06, 2005

'The Brown Bunny' e a sabedoria dos ditos populares

O maior problema dos chamados filmes comerciais é, talvez, o didatismo. A música incidental que sublinha a tensão ou o drama, a construção tatibitate da história, o final previsível, a apologia do moralismo e do triunfalismo -- toda a redundância resulta, em maior ou menor grau, da necessidade de ser didático.

Já os ditos filmes de arte sofrem de outros males: a pretensão da genialidade, o hermetismo, a excessiva lentidão mais perceptível com a economia da música incidental.

Esses supostos defeitos são mais ou menos perdoáveis, dependendo do caso. Apesar deles, o ingresso na sessão pode valer a pena. Porque os filmes de arte requerem uma atenção participativa. São os espectadores que montam a história, descobrem a motivação dos personagens e resumem os fragmentos numa sinopse que lhes dá sentido.

Os maus filmes de arte são aqueles que oferecem pouco ao público e exigem demais dele. The Brown Bunny integra esse grupo.

Os verdadeiros artistas estão fora do filme: os críticos de interpretações grandiosas. Dizem ver a dor da perda, a culpa, a auto-punição, o desejo de dominação e o narcisismo num fiapo de trama esgarçado que se explica de repente, porém não se redime, no boquete final. Para eles, assim como um cachimbo não é um cachimbo, o boquete é uma metáfora.

Se você quer gostar do longa-metragem, decore os argumentos que fundamentam os elogios antes de entrar na sala de exibição. Sem estar sugestionado, resta-lhe acompanhar um conjunto de episódios inverossímeis e forçados, como o da mulher perto da máquina de Coca-Cola; outros secundários e aparentemente sobrando, caso da corrida de moto e da fixação por animais de estimação.

A famosa cena de sexo oral explícito é convincente de dar inveja aos profissionais do cinema pornô, mas absolutamente gratuita e injustificável. Uma maneira fácil e apelativa de chamar atenção, não menos rasteira do que as adotadas na televisão brasileira em nome da disputa pela audiência.

O que tenta dar sentido ao filme é o diálogo que começa na detalhada felação e continua depois. Volto a ela porque é, praticamente, tudo o que acontece de relevante. Até esse ponto, a trama se arrasta em silêncios, canções country e aventuras desconexas apresentadas com o enquadramento descuidado e a fotografia granulada à Dogma 95.

Concluído em 2003, The Brown Bunny provocou choque e vaias de desprezo em Cannes. Agora, ganhou elogios até de Godard.

É uma evidência de que os ditados populares têm boa dose de sabedoria. A maioria dos críticos mudou de idéia depois da insistência do relançamento. Sabe como é, tanto bate até que fura. Fiquemos, porém, com a primeira impressão.

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quarta-feira, junho 01, 2005

Moda e banho

Deixa eu ver se entendi, a moça ajeita a franja vermelha inclinada na testa. Você quer seus cabelos curtos, mas não rentes à cabeça. Curtos que dê para pegar, sentir o cabelo?

É, pode ser, responde o rapaz lanzudo, já meio arrependido de ter ido ao salão, os longos fios da testa formando um Example de lanchonete que se estende até um pouco abaixo dos olhos.

Que tal este? sugere a moça, mostrando um álbum de fotos.

Example

Não sei. É que a cabeça dele é bem diferente da minha. O formato... Será que vai ficar legal?

Então, eu já sei um perfeito. Este!

Example

Lembra muito o seu cabelo, até na cor, e o tipo de rosto...

O Ok, constrangido, saiu quase como um cochicho. Eu só queria um pouco mais curto.

Tá bom. Aí quando crescer, vai ficar assim e você pode passar pomada, que é melhor que gel porque não deixa aquele brilho e não fica muito duro. Passa pouquinho que o pote dura um ano ou mais. Posso fazer?

Pomada

REDKEN
5TH AVENUE NYC
04050607080
Rewind
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150 ml

Rewind é um produto de styling com textura fibrosa que dá suporte e flexibilidade. Com ele, você pode torcer, modelar... criando um look desestruturado ao extremo.

modificados a qualquer momento.

Instruções de uso: Coloque uma pequena quantidade nas mãos ou nos dedos e aplique sobre os cabelos úmidos ou secos. Hummm...

VENDA EXCLUSIVA EM SALÕES DE BELEZA.

VAL. OUT. 07 Quanto é?

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terça-feira, maio 31, 2005

O Chevette marrom
(Republicação motivada pelo filme O Operário)

Era noite. Passava numa rua escura. A poeira que cobria o vidro do carro lhe turvava a visão já difícil daquele conjunto de sombras. Reduziu a velocidade. A primeira coisa que conseguiu divisar através do pára-brisa foi um outro carro. Era branco e estava estacionado à direita, lanterna apagada, duas rodas sobre a calçada.

Ao se aproximar, foi possível ver o símbolo da polícia. A luz dos faróis percorreu, mais adiante, um Chevette velho, de uma cor gasta que lembrava o marrom. Sob sua carcaça retorcida, um corpo. Havia gente ali em volta. Provavelmente, o motorista do Chevette prestando contas a policiais. Mas não só: devia haver, engrossando o grupo, moradores curiosos que ouviram os pneus gritarem, os vidros estilhaçarem e o ferro comprimir violentamente a carne numa fração de segundos.

Os olhos buscaram de novo o corpo e viram apenas metade dele. A metade de cima. Incrédulo, o motorista tentava reunir os flashes na memória para se certificar do que vira com o carona, que se antecipou à pergunta.

- Aaaaaaaaaaaai! - reagiu o carona.

- O que foi?

- Tinha um homem caído ali.

- Eu vi - disse o motorista.

Depois de três segundos de silêncio, ele volta ao assunto.

- Sei lá, acho que não vi nada além da cintura para cima, como se ele tivesse sido cortado ao meio. Eu, hein? - debochou da própria impressão.

- Mas eu também vi apenas o tronco e a cabeça do homem atropelado - apressou-se a concordar o carona, antes de o silêncio dominar em definitivo o interior do veículo.

Na noite seguinte, no mesmo horário, o motorista se preparava para fazer a curva em direção àquela rua escura do atropelamento. Estava só. Reduziu novamente a velocidade, mais do que o necessário para contornar a esquina, como se fosse deparar pela segunda vez com a cena.

Procurou pistas que o levassem a concluir sobre como morrera a vítima da noite passada. Não havia sequer uma poça de sangue. Tudo fora limpo.

Enquanto olhava detidamente para o local onde o carro da polícia estacionara vinte e quatro horas antes, o motorista sentiu que passou por cima de alguma coisa. Primeiro, pensou ter atropelado um gato ou um cachorro. Olhou pelo retrovisor e viu, estirado no asfalto, o que parecia ser um homem separado na cintura.

Parou o carro junto ao muro de uma casa e esticou o pescoço para fora da janela. Não sabia o que fazer. O instinto foi descer de seu Chevette marrom.

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terça-feira, maio 24, 2005

Resenha

O escritor Luigi Allevato despeja seu olhar indignado sobre o mundo dos excluídos, que um dia se orgulha de ter sido, porteiro ignorado pelos moradores do prédio, torneiro mecânico invisível pelos empregadores, filho nômade de semi-analfabetos. Sua missão: escrever do ponto de vista do andar de baixo. Sua contradição: usar uma linguagem sofisticada que não desce do andar de cima; ao contrário, ajuda-o a galgar degraus no meio literário.

Careca no topo da cabeça, cabelos dos lados tão bem aparados quanto a barba, rentes à pele branca, óculos retangulares, Allevato tem uma expressão doce, talvez modesta. Quer se mostrar humilde nas atitudes e no discurso, São vocês que conhecem literatura, não eu, me corrijam se eu estiver errado.

Mas, romance-instalação )?( premiado debaixo do braço, não se contém. A "tradição tradicional" nada acrescenta à literatura, só a "tradição experimental" )da qual faço parte(. Há muitos livros lançados e pouca literatura )como a que produzo(. Rubem Fonseca perdeu a mão depois do sucesso )eu não(. Aquela romancista patricinha que trata da violência e tem o sobrenome do ex-presidente que sofreu impeachment mas eu não quero não vou nem poderia citar o nome aqui é superestimada )sou subestimado(. O jornalismo, patético, desperdiça boas histórias e inverte a ordem pela qual elas deveriam ser contadas )ainda bem que fui demitido daquele jornal popular(. Os blogues, um lixo, não trazem uma inovação sequer em relação às letras do século XVIII )só teria um se desse dinheiro(.

No fim, Luigi Allevato lê um trecho do revolucionário mais do mesmo em seu novo livro - comprem, tá?, que tenho mulher e filha e prometo não gastar com carro e celular - recebe aplausos, lamenta no íntimo a fila para autógrafos em volumes já consumidos, lidos, sublinhados e, portanto, vendidos bem antes da palestra. Mal disfarçando o triunfo sob a falsa feição tímida, sai consagrado pelos que discordam da idéia de que escritor deve ser lido, não ouvido. Os olhares de admiração o convencem da grande contribuição de seus parênteses que fecham no lugar de abrir e abrem quando é hora de fechar.

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sexta-feira, maio 20, 2005

O jogo

Meia hora antes, isolava-se. Entrava no quarto dos fundos, trancava a porta, ligava o som alto e o ar condicionado. Por fim, tirava o telefone do gancho e as roupas. Nas sagradas duas horas e meia seguintes, viveria como um ermitão. Esqueceria filhos, marido, contas a pagar. Vaidade. Tentaria ignorar as buzinas, as sirenes, as freadas e os gritos. Impediria de todas as formas possíveis a invasão do seu retiro pela cidade. A única companhia que se permitia era um copo de plástico vermelho de meio litro com mate gelado até a borda.

Enfim encontrara um marido que concordava com o seu transe de quartas e domingos. Somava bodas de prata, contando os seis casamentos. Gostava de se casar. O que não suportava eram os homens que diziam conhecê-la, mas cerceavam sua dedicação absoluta àquilo em que acreditava.

Sua nudez, naquele momento, não serviria à sedução. Desvencilhou-se da calcinha e do sutiã para melhor sentir o contato de sua pele com o manto. O tecido sintético pinicava aqui e ali. Um incômodo tolerável, porém, não seria capaz de fazê-la desistir do ritual quase religioso. Penteou os cabelos curtos, o pente alisando os fios ondulados e grisalhos. Acendeu o incenso. Era a hora da meditação.

Não muito longe, começou o jogo. Uma nação combalida segurava o fôlego. A partida era transmitida pela televisão. O aparelho de vinte e uma polegadas que a encarava no quarto apenas exibia seu reflexo na tela cinza. Tânia despertou e foi à janela, que dava para as janelas dos vizinhos. Os moradores dos dois andares de baixo tinham o televisor ligado. Estavam tensos. Esbravejavam, torciam, discutiam. Não entre si, mas consigo mesmos. Um deles acompanhava os lances também pelo rádio que berrava colado ao seu ouvido.

A tensão subiu os degraus. Tânia pensou em ver o jogo. Ou tirar o CD e sintonizar uma emissora de rádio. Que mal faria? Lembrou-se, então, dos filhos e ouviu de novo as palavras do médico cardiologista, vibrantes como um radinho de pilha. Não por precaução, mas porque vinha dando certo até a classificação para a final, repetiu o mantra: O Flamengo me deu várias alegrias, outras tantas decepções e uma ponte de safena. Se ele fosse eu, não assistiria mais às partidas.

Pegou o copo de mate na cômoda. Notou, na superfície da madeira, o círculo molhado. Bola? O líquido escuro no recipiente vermelho estava doce e morno. O jogo já devia estar no segundo tempo. E, no entanto, não ouvira qualquer sinal - por mais tímido - de comemoração. Ninguém aumentou de repente o volume da TV ou do rádio durante a narração de um gol. Nenhum grito, nenhuma buzina, nenhuma provocação. Nem sequer fogos de artifício ou tiros. O som da música, calculado, não era alto o suficiente para isolá-la completamente dos outros torcedores.

A aflição a torturava. Estaria na prorrogação? Será que foi para os pênaltis? Num ato derradeiro de devoção, Tânia retirou do armário a camisa oficial de goleiro e a estendeu na cama, as mangas abertas para os lados, como se fechassem a baliza. A camisa pólo de técnico estava pendurada no encosto de uma cadeira. Alguma coisa lhe dizia que dariam sorte, talvez o nó na garganta ou o aperto no peito.

Não reconheceu os tons pastéis do teto e da parede. Demorou um pouco até perceber que estava deitada e mais ainda para entender o porquê do uniforme verde. Entrou o marido tricolor, inconformado, Passei mal por causa de futebol? Não, querido, deve ter sido o jantar que não me fez bem. O médico já me falou que eu vou dormir aqui? Mas eu não posso, preciso saber quanto foi o jogo, comemorar a taça, afogar as mágoas. Esqueço esse o quê?! Timinho? Quero divórcio!

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segunda-feira, maio 09, 2005

A metamorfose

comic-mint.com
Example
Chefe e F. (ou seria V.?) dialogam no escritório

V. é gente boa. Tímido e convencional, sai à noite de camisa pólo e calça jeans. Só muda a cor da camisa.

Na mesa de bar, toma um, dois, três chopes e ri à toa, à toa. Se solta que dá gosto. Disserta sobre seus ídolos nos desenhos animados, atropelando as palavras menos pela pressa do que pelo hábito de falar quase de boca fechada.

Cada vez que se empolga, fala alto, a voz desafinada alcançando agora várias oitavas fora do tom. Ninguém liga. Talvez nem repare. Em meia hora, parece um velho amigo.

De uns tempos pra cá, uma baixinha deu para lhe segurar as rédeas curtas com firmeza. V. se sente tolhido, mas prefere não se aborrecer. A solidão o deixa perdido, autodestrutivo, exilado, estrangeiro. Melhor a chateação.

Mas o maior problema é quando V. se junta com F.. Ele vira outra pessoa. Outra pessoa, uma ova. Outro ser. Outro ser, não. Outro ex-ser.

No banheiro, quando chega ao escritório, vê seu reflexo se apequenar. As costas, que já não eram largas, se encolhem, ficam tão estreitas quanto o pescoço. A metamorfose continua, mas V. se recusa a ver. Quando finalmente toma coragem, enxerga no espelho um inseto esmagado porém orgulhoso, como um palestino que se explode na certeza de fazer a coisa certa.

F. se apossa de V.. Exige dele que compactue com uma série de irregularidades de Chefe e aceite a insubordinação descontrolada de A..

V. aceita, feliz. Não desconfia que A., metida a mandona, viajou pelo mundo sonhando roubar-lhe o lugar. Presume que ela seja inteligente por levar o best-seller pra lá e pra cá, como peça de roupa, e nem percebe que o marcador avança pouquíssimas páginas a cada mês. É eternamente grato a ela por ter arrumado uma mulher com quem V. e F. fazem o que, num acesso de raiva, queriam fazer com Chefe, mas é Chefe quem faz com os subordinados deles.

Os dois gostariam que todos fossem acomodados como eles. Uns se vão, revoltados; outros ficam, contrariados. Para V. e F., esses também deveriam ir. Querem gente que se doe, gente que seja lágrima no mar de fiéis dos funerais do Papa, gente temente à hierarquia en cuanto valor sagrado. Querem se cercar de duplos.

Se tivesse de contra-argumentar com Chefe, V.F., exemplar como sempre, desafinaria mesmo falando baixo e, já arrependido, hesitaria de propósito para dar chance de ser interrompido e enxotado. Um olhar de reprovação o deixaria nu e desarmado; um soco na mesa causaria um olho roxo. Entre matar a mãe e correr o risco de educadamente discordar de Chefe, mãe, sinto muito, mas eu preciso...

V. e F. se tornaram a mesma mosca irritante, esmagada no primeiro tapa e rediviva.

Nota de esclarecimento: V.F. são iniciais de um nome fictício escolhidas para um texto de ficção. Qualquer semelhança com pessoas e situações reais é mera carapuça.

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sexta-feira, maio 06, 2005

Diário de um jogador

Suns.com
Example
Paul Shirley virou celebridade com blogue sobre bastidores da NBA

Como jogador de basquete, Paul Shirley é um ótimo cronista. E sabe disso. Joga apenas quando o Phoenix Suns abre larga vantagem no placar. Quase sempre, nem assim. Mas estar ao lado da quadra lhe oferece a oportunidade de ser, mais do que um torcedor privilegiado, um observador sem paralelo dos bastidores da NBA.

Seu pulsante e, às vezes, confuso (ele abusa dos parênteses) diário da "road trip" de março ajuda a desmistificar o esporte. Shirley reclama da estafante seqüência de partidas fora de casa que fez a equipe percorrer cinco cidades em oito dias, cruzando os Estados Unidos de leste a oeste, em vôos intermináveis. Nada, porém, que o faça querer largar o emprego, ele se apressa a dizer, para evitar críticas imaginárias de um operário da construção civil.

O contraste entre as cadeiras vazias e a pirotecnia do ginásio do fraco porém orgulhoso Atlanta Hawks, o apartamento em Phoenix que está longe de ser um lar, a solitária rotina quebrada por passatempos como o pôquer, a siliconada Miami para ver e ser visto - nada escapa de seu olhar arguto. O resultado são textos bem-humorados, sensíveis, intrigantes e sarcásticos sobre o basquete como ele é nos intervalos das transmissões da ESPN.

Com aparente franqueza e sem qualquer vestígio de autopiedade, Paul Shirley também tira o uniforme de jogador-torcedor e revela seus conflitos. Ir ao show de uma de suas bandas favoritas ou dormir cedo, aproveitar a folga na praia ou levantando peso são dilemas que ele vive, mas não demora a resolver. Reserva obscuro com experiência em esquentar banco sem reclamar, prefere a diversão.

Difícil dizer que está errado. No ano passado, quando jogava pelo Chicago Bulls, o esforço de cavar uma falta de ataque numa partida praticamente perdida para o Indiana Pacers lhe custou nove dias internado num hospital para recuperar o rim atingido por uma joelhada.

Após o sucesso de suas impressões sobre a "road trip" da temporada regular, Shirley voltou a atualizar seu diário. Agora, trata do cotidiano do favorito Phoenix Suns na fase decisiva, os mata-matas. O Suns.com promete não censurá-lo, como fez com algumas expressões usadas anteriormente. As mudanças no texto, promete o portal, serão de comum acordo. Resta saber o quanto a condição de celebridade instantânea vai prejudicar a independência de seus comentários.

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quinta-feira, maio 05, 2005

Silver Eagle (Ou: História Orkutiana)

Mundo louco digo eu! Confesso que quase apaguei seu e-mail sem abrir. Não reconheci o remetente e desconfiei do assunto. Pensei até que fosse vírus. Mas, de repente, o nome Silver Eagle me pareceu familiar. Mal comecei a ler, e foi como se estivesse lendo sobre a vida de outra pessoa. Sabe aqueles sonhos - ou pesadelos - em que a gente se vê personagem?

Me senti, talvez, como quem sofre de amnésia e é compulsoriamente apresentado ao próprio passado. É uma sensação estranha. Primeiro, a invasão de privacidade. Uma mensagem chega e, sem aviso, conta o que disse, o que fiz, o que pretendia. O que fui. Depois, veio o assombro. Uma pessoa com quem você perdeu o contato sabe mais sobre o seu passado do que você mesmo.

Sim, eu dizia que era filho do dono da Company porque ninguém entendia como se escreve o meu sobrenome: Compan. E, dia desses, repeti a piada surrada. Sim, eu queria montar uma banda na quinta série. E esse sonho de moleque às vezes me assalta quando vejo uma banda qualquer num couvert artístico qualquer. Sim, eu me apaixonei pela Taís-irmã-gêmea-da-Tatiana e - segredo inconfessável - embalava essa paixão pré-adolescente ao som das canções grudentas do Roxette.

Mas, não, eu não me lembro do "qua-qua-se-do-cin-do-se". Não, não suspeitava de você quando recebia telefonemas anônimos. Nem sequer imagino qual foi a música que serviu de base para a tal paródia sobre cola que fiz na aula de música. E, não, não queria me lembrar de que torci seu braço por achar que você havia pegado a minha carteira. Peço desculpas de novo. Desta vez, escrevo não com giz, mas nestas letras definitivas, que, impressas, podem ecoar para sempre. Espero que me perdoe.

Fiquei contente ao saber que, feito um popstar no qual nunca me tornei, fui capaz de inspirar tantas "lembranças carinhosas". Esse carinho voltou para mim na forma da recordação de uma velha amiga e de um pretérito imperfeito que, de algum modo, já não me pertencia. Era pó espalhado sob um tapete poeirento esquecido num canto do porão da memória.

Silver Eagle! Assim ia se chamar a banda que sonhamos montar juntos, né? Você não disse explicitamente, mas agora eu sei. Obrigado.

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domingo, maio 01, 2005

Direitos do leitor

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O francês que promulgou os dez direitos imprescindíveis do leitor em Como um romance (1992, Rocco) não apenas recusa o título de intelectual, mas também se declara quase o contrário disso. Daniel Pennac se define como "um contador de histórias metaforizador". Segundo ele, sua primeira obrigação na condição de romancista é abandonar os conceitos e fazer com que qualquer idéia possa ser encarnada. "Se você pode resumir um romance pela idéia que o fez nascer, ele é um romance fracassado. É um ensaio dissimulado em romance", disse Pennac, em entrevista a Label France. Com esse perfil, talvez ele não se incomode - ou até já esteja acostumado - com os complementos à sua concisa legislação. A saber:

1. O direito de não ler.
2. O direito de saltar páginas.
3. O direito de não acabar um livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de ler não importa o quê.
6. O direito de "amar" os heróis dos romances.
7. O direito de ler não importa onde.
8. O direito de saltar de livro em livro.
9. O direito de ler em voz alta.
10. O direito de não falar do que se leu.

Modestamente, fiz uma lista complementar - ainda e sempre incompleta -, que tenta corrigir uma ou outra omissão, especificar artigos muito abrangentes e relacionar outros, mais numerosos, superficiais e episódicos. A numeração é contínua, para evitar confusão com a lista consagrada do autor francês. A ordem dos direitos abaixo é aleatória; não reflete qualquer tipo de prioridade.

11 - O direito de usar marcador de livros.
12 - O direito de dobrar a ponta da folha de papel na falta de um marcador.
13 - O direito de sublinhar trechos e fazer anotações nos livros.
14 - O direito de ler fora de ordem. (Saltar páginas é muito genérico.)
15 - O direito de emprestar livros.
16 - O direito de estabelecer um prazo para a devolução do livro emprestado. (Senão as bibliotecas não existiriam.)
17 - O direito de não emprestar livros favoritos ou raros.
18 - O direito de não emprestar livro algum para quem se sabe que pode não devolvê-lo.
19 - O direito de cobrar a devolução de um livro emprestado.
20 - O direito de não devolver um livro emprestado e, sempre que olhar para ele, tomá-lo a um só tempo como objeto e cúmplice de um crime.
21 - O direito de dar livros de presente.
22 - O direito de ler livros antes de dá-los de presente.
23 - O direito de não escrever dedicatórias em livros dados de presente.
24 - O direito de trocar livros ganhos de presente.
25 - O direito de se sentir atraído pelo que é externo ao volume e escolher um livro pela capa, pelas orelhas ou pela quarta capa.
26 - O direito de ler (ou identificar) livros nas mãos de outra pessoa por cima de seu ombro.
27 - O direito de não entender o que se leu e, se possível, tirar dúvidas com o autor.
28 - O direito de ter uma interpretação própria, diferente da intenção do autor.
29 - O direito de cotejar livros e comparar um livro a um filme ou uma peça baseados nele.
30 - O direito de esconder, nas prateleiras da livraria, um livro que se quer comprar e do qual restam poucos ou somente um exemplar.

Número de agenciados:

sexta-feira, abril 29, 2005

A arte de sentar nas ruas do Rio de Janeiro

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Acabei não indo ao posto da Praça Seca. Disseram que lá é quase impossível ser atendido. Você fica horas na fila e corre dois riscos: não conseguir a senha de atendimento e ser importunado por traficantes. Melhor não vestir vermelho, aconselham. Será verdade?

Na dúvida, vesti azul e fui de carona com meu pai à agência da Avenida Marechal Floriano, no Centro. Cheguei às 5h20. Já havia uma pessoa esperando a abertura do posto - um homem mais forte do que gordo, de uns 35 anos, com aparência de segurança de boate, mas baixo demais para a função. Soube depois que era eletricista, levou um choque no quadro de luz de um shopping e teve o dedo mindinho esfacelado na explosão que se seguiu ao tranco. Dei-lhe bom-dia, aqui é a fila para a senha do INSS, né, abri a cadeira de praia e me sentei sob o sereno honroso da segunda posição.

Pouco a pouco, chegaram outros contribuintes, uns atrás de auxílio-doença, outros querendo o seguro por acidente de trabalho. Meu pai, aposentado, reencontrou um velho amigo, o jornaleiro com quem conversou todos os dias de seus 30 anos de trabalho na estatal ali em frente. Aldo puxou assunto comigo.

- Você é jornaleiro ou jornalista?! - perguntou, brincando, e emendou, preocupado: - Melhor que seja jornalista. Depois da privatização, a vida de jornaleiro piorou muito. Quanta gente trabalhava ali, 15, 18 mil? Agora, se tiver 4 mil é muito. Pode ver que tudo quanto é comércio tá fechando, ó.

- Que maré, hem?

- E tem a internet - disse Aldo, o sotaque italiano praticamente imperceptível no jeito malandro de falar.

- A internet?

- É, rapaz! Ninguém compra mais revista de mulher pelada! O pessoal escreve no computador, clica e puxa as fotos de sacanagem.

O cara que estava atrás de mim leu uma notícia no jornal e comentou com as duas mulheres atrás dele. Algo sobre a ginasta Daiane posar na Playboy. As mulheres agarraram a oportunidade de passar o tempo e logo os três formaram uma rodinha.

A fila cresceu, mas não chegou a dobrar a esquina. No Centro da Cidade, há quarteirões grandes. Começou o passa-passa da gente apressada que vai trabalhar, e eu apoiei a muleta de um jeito que protegesse o meu joelho de um esbarrão.

Meu pai comprou o jornal. Li-o todo e emprestei o caderno de esportes para o eletricista. Faltou clima - ou coragem - para sacar O som e a fúria da pasta. Talvez perdesse a condição de ser um brasileiro desafortunado como todos eles.

Oito horas. Ouvi "O Globo no Ar" de um rádio ligado dentro da agência. Nenhum contribuinte entra, só funcionários. Aldo não quis saber: entrou e falou com um segurança conhecido dele. O segurança apontou para mim e disse que só eu poderia entrar para sentar numa cadeira acolchoada da agência. Quando me levantei da cadeira de praia, vi a expressão do eletricista, ofendido no seu esforço de acordar cedo, humilhado na sua disposição de pegar um ônibus em Duque de Caxias e ir até a capital, revoltado em seu cansaço de suportar as três horas de espera em pé.

Na distribuição de senhas, fez-se justiça. Eu peguei o número 23; o eletricista, o 22. O homem que puxara papo com mulheres falando de mulher pelada anunciou para suas novas amigas:

- Peguei logo o 24!

Elas riram.

Estávamos todos sentados diante dos mais de 20 guichês. Havia atendentes em somente três deles. O eletricista foi chamado. Em seguida, uma outra atendente me chamou. No guichê ao lado, ele me cumprimentou com a cabeça, como se estivesse sem forças para falar, mas quisesse dizer "Enfim, conseguimos".

A atendente implicou com a falta de xerox da conta de luz e de uma determinada página da carteira de trabalho. O segurança amigo do Aldo percebeu meu desespero e interveio:

- Algum problema?

Por sugestão do segurança, a atendente permitiu que meu pai tirasse as cópias numa loja ali perto. Estava bem-humorada. Maio está chegando e a categoria pretende fazer greve, disse ela. Já tinha ouvido comentários sobre isso, disse eu. Animada, a senhora sorridente de cabelos presos e mãos rápidas concluiu:

- Já a partir do dia primeiro, meu filho!

As cópias dos documentos ficaram prontas. A atendente me deu para assinar um papel com o dia marcado para a perícia, dali a mais de um mês e três semanas depois da previsão de liberação para o trabalho feita pelo médico que me operou.

- Desculpe - a voz saiu trêmula. - Mas aqui diz 6 de junho. Não seria de maio?

Ela parou de mexer nas cópias, mas permaneceu congelada na posição, as duas mãos sobre a mesa, a cabeça inclinada para a frente.

- Não, só tem vaga em junho - explicou ela, como se dissesse o óbvio, mirando os meus olhos, a expressão grave.

Meu olhar se concentrou no branco espesso sob sua íris quase escondida na pálpebra superior.

- Você entrou na fila para a perícia. Demora mesmo. Eu não mexo nisso; o computador me dá pronto. Tudo certo, então... Pode ir. Tchau.